Herbário MAC
documenta espécies que podem colaborar num cardápio variado
Janderson
Oliveira
A dieta do
alagoano pode ser mais abrangente do que feijão e arroz. Já pensou em almoçar
escondidinho de cará com carne de jaca, ora-pro-nóbis e açafrão da terra? Esse
é um exemplo de prato composto por Plantas Alimentícias Não Convencionais
(Pancs). O nome é muito mais próximo do que se imagina: algumas espécies tradicionais
são encontradas facilmente na flora e podem integrar o nosso cotidiano como
fontes abundantes de nutrientes e renda.
Esse grupo de
vegetais comestíveis é considerado fundamental para a proteção da
biodiversidade, afirma Rosângela Lemos, consultora do Herbário MAC do Instituto
do Meio Ambiente do Estado de Alagoas (IMA/AL).
“A
alimentação é um fato muito importante para a biodiversidade. A partir do
momento que a população faz uso sustentável das plantas, o legado das pessoas
antigas é passado às novas gerações. Tudo isso tem importância primordial para
preservar o meio ambiente e fortalecer o resgate dos conhecimentos dos ancestrais”,
declara a bióloga do acervo quaternário em 2020.
Estudos sobre
Pancs podem ser encontrados em diversas das áreas do conhecimento. No Estado, é
um dos objetos de pesquisa da professora Patrícia Muniz do Centro de Ciências
Agrárias da Universidade Federal de Alagoas (Ceca/Ufal).
O projeto é
ancorado pela etnobotânica, a ciência que estuda as relações entre as pessoas e
as plantas. A metodologia identifica as espécies mais conhecidas, literatura
local relacionada e quais são os fatores que interferem nesse conhecimento, os
critérios para que as pessoas escolham consumir uma planta ao invés de outra.
“Fomos percebendo
que para contribuir na popularização dessas plantas precisamos entrar em outras
áreas que estão ali na fronteira da etnobotânica. Incorporamos no trabalho questões
da psicologia e comportamento do consumidor, por exemplo”, revela a professora.
Comunidades
alagoanas são campos para descoberta de Pancs
É possível
encontrar em diversas cidades alagoanas exemplos de usos não amplamente
difundidos de plantas alimentícias. No assentamento Dom Elder, em Murici, o
projeto do Ceca encontrou uma dieta local singular, com o consumo de variadas
plantas em múltiplas formas, a exemplo da taioba (Xanthosoma sagittifolium)
A folha do tubérculo
está na culinária da região, sendo este um uso pouco visto, pois a parte mais utilizada
é a raiz. Quando picada e cozida, pode-se encontrar uma rica fonte de vitamina
A e C, além de minerais como o Ferro e Cálcio.
Outra espécie é o araçá-do-campo
(Psidium guineense). Além do ótimo sabor em doces, o fruto possui vitamina
A, B e C, minerais como o Cálcio, Ferro e Fósforo.

Essas duas espécies estão bem distribuídas no território de Alagoas,
revela o acervo do Herbário MAC. Há dezenas de registros de Psidium guineense
na coleção, de Maceió à Viçosa. Isso faz questionar o porquê de muitas plantas
continuarem sendo consideradas “alimentícias não convencionais”.
“São inúmeros
desafios para popularizar essas plantas”, afirma a professora Patrícia Muniz,
“o primeiro desafio é o próprio desconhecimento, mesmo as espécies podendo ser
encontradas em beira de estrada. Muitas vezes as pessoas querem consumir, mas
não têm acesso aos produtores ou extrativistas. Ainda há a questão da neofobia
alimentar, a aversão a consumir coisas novas, e se de fato está relacionado com
a disposição a consumir Panc”, detalha a pesquisadora.
Você comeria uma
Panc?
As plantas
alimentícias não convencionais são acessíveis em Alagoas, do litoral ao sertão,
e estão ganhando espaço entre a população.
“O cenário é muito
positivo. As Pancs hoje são consideradas um hot topic. Isso acontece
graças às várias ações sendo feitas regionalmente, como o plano de introdução
de Pancs na merenda escolar de Maceió”, revela a professora Patrícia Muniz.
Durante a pandemia
do novo coronavírus, conhecer novas formas de se alimentar podem introduzir
hábitos saudáveis cotidianos. Com certeza há uma planta alimentícia não convencional
que pode fazer parte de sua dieta.
Encontre as Pancs registradas
em Alagoas no acervo virtual do Herbário MAC disponível em: http://www.splink.org.br/search?lang=pt&collectioncode=MAC